segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O de dentro

Mente externa,
Livre encanto.
O de dentro
Causa espanto.

Clarividência outorgada?
Sossego conturbado.
Fez-se a sombra e a ilusão.

Mente limpa,
Besta encanto.
O de dentro
Joga espanto.

Obviedade renegada?
Besteira obrigada.
Fez-se os muros e a prisão.

Mente calma,
Falso encanto.
O de dentro
Mete espanto.

Sapiência imaculada?
Leviandade cagada.
Fez-se o medo e a frustração.

Mente-nada,
Nada-espanto.
O de dentro
Continua causando espanto.

sábado, 12 de novembro de 2011

Espelho-ironia-hipocrisia

De que serve o desprezo
Se
Pune o preço do pecado
Com pena da pobreza?

De que serve o gracejo
Se
Conta o caso do capado
Com calma e clareza?

De que serve o sossego
Se
Foge a fuga do finado
Por falta e fraqueza?

Decanta o sumo de teu sonho
Pra que a soma seja seca.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Joãozinho

Sol. Ônibus. Fogo. Fumaça.

Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.
Coma, João. Coma, João. Arroz, feijão... Sem ovo.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.
Cana, facão. Voa facão. Facão, sem mão... Pescoço.
Cana, facão. Lágrima não. Cana facão... Pano.
Lágrima não. Cana, facão. Lágrima não... Pano.
Lágrima não. Lágrima não. Lágrima NÃO... pano.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Sono.
Cama, tem não. Rede, tem não. Caixão, tem não... Soluço.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.

Lua. Ônibus. Terço. Buraco.

domingo, 23 de outubro de 2011

Incoherence

When I came upon myself, there was nothing to be seen.  All was dark and dreary, not the dimmest light would sway about.  Darkness surrounded me like an ooze, and the dampness of the now audible rain struck my nostrils as to grant a slight perception of reality.  Still I wondered:  How knew I of darkness if light did not appear?
This question haunted me, and so forth it could not be forgotten.  I am eager to reply.

Eyes open.  Blurry, all.  Bright light, mild pain.  Not limited to imagination, to senses.  Shapeless mass of uncountable fingers.  Dismantled rainbow.  Blue behind.  Yellow aside.  Tangled forms. Miles, inches, ounces?  Warm sheets, cold floor.  Water.

Holy shit, the next bus leaves in five.  Gotta go, hope I don't get late.  Oh no, I can't believe it, I gotta pass by the bank.  No, not this again...  Why won't it move, for crying out loud!  Great, to top it off it's raining, isn't it swell?  Should I take a cab or the subway downtown?  Argh, I'm late already, what difference does it make?  Shit, it's my ass on the line.  God dammit, not again, not another late shift, not another twenty-page report, aaaargh!!

Water.  Warm food, soft couch.  Miles, yards, feet, inches.  Clear forms, clear colors.  Yellow on top. Blue nowhere.  Five fingers, one remote.  Patience.  Not limited to senses, to imagination.  Dim light, excrutiating pain.  Blurry, all.  Eyes close.

As I came upon myself...

domingo, 9 de outubro de 2011

Fim

I

Destrói a vida daquele que acredita. Foge, foge para o escombro. O fogo arde como o tremor acalma. Acalma. Bate até que surja a carne. Cria a ferida que desmancha, por sabor ferrífero da hemoglobina saliente. Come, engole o suco da vivência. Amarelo sob o negro escondido no vermelho. Sacrifica o desejo do espanto. Abate a clarividência, a solenidade. Áspera seda onipresente. Sufoca o mito do saber. A vertigem louca reconstitui.

II

Enaltifica o que não quer. Quer. Embriaga descontente. Álcool sóbrio da razão. Obriga a ordem pela lógica. Caminha o passo ambíguo na linha eternamente conhecida. Levanta o pilar negro da exatidão. Segurança. Conforto... Toque de seda. Ferida matemática. Despenca tudo o que está construído. Não há novidade no sabor estrutural. Escombro alógico da razão. 

III

Conhece o prazer do aconchego. Junção. Presença. Aproxima o que quer. Não quer. Vivência amarela. Prazer íntimo que acalma. Não acalma. Remexe até que o tremor acustume. Embebe o álcool energizante. Foge ao dividendo. Surge a carne. Visão onipresente oniopriminte. Separa o fogo do pilar. Inexistência extática irreconstituível. Abate a certeza, o mito, o saber. Nada sobra.

domingo, 18 de setembro de 2011

Aranhas

Aranhas medonhas
Me machucam, me mordem,
Com ferrões ferrenhos
Me enclausuram na morte.
Eu preso na teia,
Transada em ilusões
Só minhas, clareiam,
Sem quaisquer alusões,
Sentimentos serenos
De que eu sou são.

Aranhas malditas!
Amo o seu veneno,
Revira a carne,
O rosto em desprezo,
Da volúpia vinda
Fulgurou a certeira.
Pobre falangídeo,
Causa medo, não dor,
Aranhas que lembram
De que eu sou são.

Tenho uma certeza na vida,
Fora a morte tão conhecida:
Quero ser entomologista
Aracno-especialista.

sábado, 3 de setembro de 2011

No pants and a hat


I

There once was a man with no pants. His head could not be described the same, he wore a hat. Something odd: in his house hangers, but no coating on the couch. Could there be a reason? A pigeon has no feathers if it fails to admit.

II

Golden foil on the windows. The trembling orb warms the wrist.

Excuses me, I should like some water, Mr. Faucet. The hair is an extension of the brain, best to be taken care of. Stoops, little bird, it tastes better sideways. Is there any more eggs, Mr. Fridge? A healthy meal keeps the mind sane. Nice to see you, Mr. Paper, what news brings you today? It musts be the beadle, it cans only be the beadle.

III

The parrot sang, but the hum was yet another: a car roaming down the street. A soft glance could not foresee, what commotion it would be.

IV

Stop. Walk. Investigate. Hit: knock, knock.

Mr. Door, coulds you open for our visitor? Oak is as good as birch.

Greet him. Ask for his health. Fake interest.

Hey, comes in. Does you want to sit? Sits on Mr. Couch. A good cushion makes pain easy.

Sit. Talk. Fake interest.

Does you want coffee? I can make with Mr. Coffeemaker. Caffeine clears throat to sing.

Get up. Follow him. Pet parrot. Hit: ouch, ouch.

Why?! It's the beadle! It's the beadle! I am lost! I am lost!

V

Feathers. Pants on broken ties. No wrists are warmed. Hair starring at the silver.