segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O de dentro

Mente externa,
Livre encanto.
O de dentro
Causa espanto.

Clarividência outorgada?
Sossego conturbado.
Fez-se a sombra e a ilusão.

Mente limpa,
Besta encanto.
O de dentro
Joga espanto.

Obviedade renegada?
Besteira obrigada.
Fez-se os muros e a prisão.

Mente calma,
Falso encanto.
O de dentro
Mete espanto.

Sapiência imaculada?
Leviandade cagada.
Fez-se o medo e a frustração.

Mente-nada,
Nada-espanto.
O de dentro
Continua causando espanto.

sábado, 12 de novembro de 2011

Espelho-ironia-hipocrisia

De que serve o desprezo
Se
Pune o preço do pecado
Com pena da pobreza?

De que serve o gracejo
Se
Conta o caso do capado
Com calma e clareza?

De que serve o sossego
Se
Foge a fuga do finado
Por falta e fraqueza?

Decanta o sumo de teu sonho
Pra que a soma seja seca.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Joãozinho

Sol. Ônibus. Fogo. Fumaça.

Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.
Coma, João. Coma, João. Arroz, feijão... Sem ovo.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.
Cana, facão. Voa facão. Facão, sem mão... Pescoço.
Cana, facão. Lágrima não. Cana facão... Pano.
Lágrima não. Cana, facão. Lágrima não... Pano.
Lágrima não. Lágrima não. Lágrima NÃO... pano.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Sono.
Cama, tem não. Rede, tem não. Caixão, tem não... Soluço.
Cana, facão. Cana, facão. Cana, facão... Pano.

Lua. Ônibus. Terço. Buraco.

domingo, 23 de outubro de 2011

Incoherence

When I came upon myself, there was nothing to be seen.  All was dark and dreary, not the dimmest light would sway about.  Darkness surrounded me like an ooze, and the dampness of the now audible rain struck my nostrils as to grant a slight perception of reality.  Still I wondered:  How knew I of darkness if light did not appear?
This question haunted me, and so forth it could not be forgotten.  I am eager to reply.

Eyes open.  Blurry, all.  Bright light, mild pain.  Not limited to imagination, to senses.  Shapeless mass of uncountable fingers.  Dismantled rainbow.  Blue behind.  Yellow aside.  Tangled forms. Miles, inches, ounces?  Warm sheets, cold floor.  Water.

Holy shit, the next bus leaves in five.  Gotta go, hope I don't get late.  Oh no, I can't believe it, I gotta pass by the bank.  No, not this again...  Why won't it move, for crying out loud!  Great, to top it off it's raining, isn't it swell?  Should I take a cab or the subway downtown?  Argh, I'm late already, what difference does it make?  Shit, it's my ass on the line.  God dammit, not again, not another late shift, not another twenty-page report, aaaargh!!

Water.  Warm food, soft couch.  Miles, yards, feet, inches.  Clear forms, clear colors.  Yellow on top. Blue nowhere.  Five fingers, one remote.  Patience.  Not limited to senses, to imagination.  Dim light, excrutiating pain.  Blurry, all.  Eyes close.

As I came upon myself...

domingo, 9 de outubro de 2011

Fim

I

Destrói a vida daquele que acredita. Foge, foge para o escombro. O fogo arde como o tremor acalma. Acalma. Bate até que surja a carne. Cria a ferida que desmancha, por sabor ferrífero da hemoglobina saliente. Come, engole o suco da vivência. Amarelo sob o negro escondido no vermelho. Sacrifica o desejo do espanto. Abate a clarividência, a solenidade. Áspera seda onipresente. Sufoca o mito do saber. A vertigem louca reconstitui.

II

Enaltifica o que não quer. Quer. Embriaga descontente. Álcool sóbrio da razão. Obriga a ordem pela lógica. Caminha o passo ambíguo na linha eternamente conhecida. Levanta o pilar negro da exatidão. Segurança. Conforto... Toque de seda. Ferida matemática. Despenca tudo o que está construído. Não há novidade no sabor estrutural. Escombro alógico da razão. 

III

Conhece o prazer do aconchego. Junção. Presença. Aproxima o que quer. Não quer. Vivência amarela. Prazer íntimo que acalma. Não acalma. Remexe até que o tremor acustume. Embebe o álcool energizante. Foge ao dividendo. Surge a carne. Visão onipresente oniopriminte. Separa o fogo do pilar. Inexistência extática irreconstituível. Abate a certeza, o mito, o saber. Nada sobra.

domingo, 18 de setembro de 2011

Aranhas

Aranhas medonhas
Me machucam, me mordem,
Com ferrões ferrenhos
Me enclausuram na morte.
Eu preso na teia,
Transada em ilusões
Só minhas, clareiam,
Sem quaisquer alusões,
Sentimentos serenos
De que eu sou são.

Aranhas malditas!
Amo o seu veneno,
Revira a carne,
O rosto em desprezo,
Da volúpia vinda
Fulgurou a certeira.
Pobre falangídeo,
Causa medo, não dor,
Aranhas que lembram
De que eu sou são.

Tenho uma certeza na vida,
Fora a morte tão conhecida:
Quero ser entomologista
Aracno-especialista.

sábado, 3 de setembro de 2011

No pants and a hat


I

There once was a man with no pants. His head could not be described the same, he wore a hat. Something odd: in his house hangers, but no coating on the couch. Could there be a reason? A pigeon has no feathers if it fails to admit.

II

Golden foil on the windows. The trembling orb warms the wrist.

Excuses me, I should like some water, Mr. Faucet. The hair is an extension of the brain, best to be taken care of. Stoops, little bird, it tastes better sideways. Is there any more eggs, Mr. Fridge? A healthy meal keeps the mind sane. Nice to see you, Mr. Paper, what news brings you today? It musts be the beadle, it cans only be the beadle.

III

The parrot sang, but the hum was yet another: a car roaming down the street. A soft glance could not foresee, what commotion it would be.

IV

Stop. Walk. Investigate. Hit: knock, knock.

Mr. Door, coulds you open for our visitor? Oak is as good as birch.

Greet him. Ask for his health. Fake interest.

Hey, comes in. Does you want to sit? Sits on Mr. Couch. A good cushion makes pain easy.

Sit. Talk. Fake interest.

Does you want coffee? I can make with Mr. Coffeemaker. Caffeine clears throat to sing.

Get up. Follow him. Pet parrot. Hit: ouch, ouch.

Why?! It's the beadle! It's the beadle! I am lost! I am lost!

V

Feathers. Pants on broken ties. No wrists are warmed. Hair starring at the silver.

domingo, 28 de agosto de 2011

Gêmeos

Tradução do russo de um poema de Fiodor Tiúttchev:

Há gêmeos - para os mortais
Dois deuses - Morte e Sonho,
Como irmãos símiles belos
Ela vil, ele mais tenro:

Mas há no mundo outros gêmeos -
E não há no mundo par melhor,
E fascínio mais perigoso,
O dela traiçoeiro coração:

Junção sanguínea, proposital,
E só nos dias mais fatais
De seus segredos insolúveis
Nos enfeitiçam eles nós.

Na fartura de sentimentos,
Quando ferve e esfria o sangue,
Há quem não cuide das tentações -
Suicídio e Amor!


E o original em russo pra comparar:

Близнецы 

Есть близнецы - для земнородных
Два божества - то Смерть и Сон,
Как брат с сестрою дивно сходных
Она угрюмей, кротче он:

Но есть других два близнеца -
И в мире нет четы прекрасней,
И обаянья нет ужасней,
Ей предающего сердца:

Союз их кровный, не случайный,
И только в роковые дни
Своей неразрешимой тайной
Обворожают нас они.

И кто в избытке ощущений,
Когда кипит и стынет кровь,
Не ведал ваших искушений -
Самоубийство и Любовь!



                                              Фёдор Тютчев 
                                              Между июлем 1850 и серединой 1851

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Reinácio


Reinácio chegou a cidade com os pés esfolados. Tudo o que ele possuía era uma mochila, nela: um cobertor, uma garrafa e um pão duro e amassado. O resto se precisasse conseguia por caridade. Havia muito tempo que Reinácio embarcara nessa peregrinação, de vila em vila, cidade em cidade, sempre andando, sempre andando. Em certo ponto da sua vida encasquetou-se em fazer da Terra o purgatório, expirar os pecados, para assim chegar ao céu mais rápido; desde então calou-se e pôs-se em movimento. Mas a marca desse vida martiriosa era óbvia e qualquer um que o olhasse perceberia: as mãos frias e calejadas, os pés ensanguentados, o cabelo seco e gasto, a barba longa e mal cuidada, a pele suja e abatida, mas principalmente a magreza de quem abdicou os prazeres de Dionísio. E seu aspecto, nesse instante sob o luar, fantasmagórico por si só, tornava sua existência quase nula, um ectoplasma, quase.
            Andava simplesmente, nada não queria, só um telhado, só um misero abrigo que o protegesse do sereno; dormir para retomar sua caminhada em busca de redenção.
            Chegou a cidade e procurou o centro, pois em todo centro há uma igreja, e em toda igreja  bondade, acreditava. Seguiu sua lenta marcha silenciosa pelas estreitas ruas ainda de paralelepípedos, escolhendo por instinto em qual virar, atravessando o silêncio ainda maior do que o de seus passos. Seguia com seu cambalear de viajante exaurido, extremamente melancólico, o que só se reforçava pela desertidão da cidade, o sono profundo de todos os habitantes, e, quem sabe, pela escassa luz do único lampião.
            Enfim achou a igreja. Tirou seu cobertor sujo da mochila, deitou-se a porta, cobriu-se e cerrou os olhos, como alguém que finalmente encontra a mente limpa.
            “Você não pode dormir aqui.” disse o padre, abrindo a porta.
            Reinácio levantou, abriu a mochila e tirou o pão. Ofereceu-o ao padre.
            “Não quero propina, sai daqui, vagabundo!”
            Reinácio manteve-se parado, simplesmente olhou para o padre, sem demonstrar nenhuma emoção, partiu um pedaço do pão e de novo ofereceu ao padre.
            “Aqui é casa do Nosso Senhor, não abrigo de mendigo, vai embora, vagabundo!”
            Continuou na mesma posição, com o olhar fixo, piscou e ofereceu o pão. O padre entrou na igreja e voltou com um cabo de vassoura.
            “Não vai dormir em outro lugar? Vou te ensinar a respeitar Aquele que nos criou!” e fez gesto de que ia bater com o cabo de vassoura. Reinácio por não reagir a ameça, começou deveras a ser espancado.
            “Você gosta disso? Vai aprender a respeitar o Nosso Pai, vagabundo!”
             Nenhuma única menção de movimento ou dor vinha de Reinácio, ele levava cada paulada como se fosse um saco de areia. Isso causou uma raiva incontrolável no padre, que agora batia mais forte e mais forte. Eram movimentos cadenciados, precisão rítmica perfeita, o bater e o bater continuavam. Nessa o sol começou a mostrar as caras, e com a chegada da aurora, o viajante era agora quase uma massa de ossos, sangue e hematomas. O padre, pressentido que o outro logo morreria, perguntou:
            “Alguma última palavra antes de ir pro inferno, vagabundo?”
            “Eu te perdoo.”

A Trava

Foi-se o tempo da palavra presa,
O movimento curto, a cabeça estreita.
Foi-se o tempo da fatal destreza,
Habilidade pura, precisão perfeita.
Foi-se o tempo da total certeza,
Sabedoria nata, em qualquer faceta.

Sou novo, mudado, diferente.
Está claro, escuro, transparente.
Certeza não há, clarividência tampouco,
Há o agora e mais nada.

Desbravo o novo continente:
O primeiro passo, o desespero;
O segundo passo, um alvoroço;
O terceiro, um leve encanto;
E no quarto encontro a ambrosia.

Corro à luta, abro a porta,
Está trancada!
Falta o ferrolho...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Bilhete da mãe ao filho

Prezadíssimo filho,

Indago-lhe primeiramente o caráter de sua saúde.
Informo-lhe que venho por meio desta na intenção de fazer o especial obséquio de propor-lhe que me escreva, pois no instante em questão estou afetada pelo sentimento de saudades devido a ausência de contato indigna a relação de familiares a qual pertencemos.
Cordialmente mando-lhe abraços e incumbo-lhe com a obrigação de responder-me.

Mamãe

domingo, 14 de agosto de 2011

...без чувств своих...

O que significará
Essa forma flutuante
Do sonho de mar eterno?

Fazes da angústia desespero,
Varres da razão o sacro espírito,
Já sumido, claro a si próprio,
Jaz muito tempo protuberante.

Trazes contigo o embriago,
Ébrio estou do desencanto,
Soluço às margens dissolutas,
Marasmo sofrido, sufocante.

Foge a luta que te espera,
Fogo brando, tardio espanto,
Cega a vista, o triste sonho,
Fecha a porta, esquece-os dentro

domingo, 31 de julho de 2011

A necessidade do café


Todo dia tomo café
                              e não tenho fé.
É que tomo-o sem açúcar,
não tento esconder amarguras da vida,
pois sei que não há saída.
Afogo-as como a um saquinho de chá,
e absorvo a sua essência.

E o sofrimento é de mim
                                           parte.
Como ambiguidade que me

Mas não posso todo dia tomá-lo.
Então às vezes escolho:
ou suco
             ou chocolate quente.
Não há estômago que aguente
sobreviver a essa úlcera.
Sobra-me a borra da demência.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Servidão

Onde é que mora a lamúria,
Serva discreta, ternura da dor?
Não há de mim a luxúria,
Serva concreta, de um novo ardor?
O que se faz co'a usura,
Serva secreta, querer sem dispor?
Por que afoga a penúria,
Serva infinita, viver sem sabor?

sábado, 23 de julho de 2011

O escritor e o intelectual

            Escrevia ele na máquina tão rápida e violentamente que, é claro, estava fadado a errar. Pois foi o que se sucedeu. Perdera a folha, erro irreparável. Enfezou-se e a arrancou da máquina com uma brutalidade já esperada e jogou-a para trás.
           A folha ao gentilmente rodopiar no ar, exibia sua brancura corroída por uma estória inacabada, por um erro. Se deparava com a fatalidade de já não pertencer mais a uma função. Era história agora, passado. Seu único consolo seria a boa vontade do dono de a jogar no lixo e acabar de vez com seu papel no mundo. Mas planava com delicadeza... Continuava com seu lento percurso de encontro ao chão e... parou! Simplesmente estava lá, imóvel, estática, sem nada que a apoiasse, entre o chão gélido e o teto distante: parada!
-        Que fato incomum – começou o outro sentado na poltrona atrás dele, pousando o livro,– isso diverge de qualquer lei já redigida. Quanta soberba em relação à minha adorada física! Obviamente que a certa reação é forçá-la a retornar a seu movimento inicial, para que assim chegue ao chão e não ofenda a querida entropia.
-        Mas que absurdo! Ela não é mais uma folha comum, agora ela é especial, entende. Ela já tinha ficado inútil, mas ela é mais forte, ela não desiste! Ela tem que ser estudada, entender pra que é que ela tá aí parada, que maldita força de vontade que ela arranjou pra poder parar. Isso é completamente novo, nunca antes visto! Você tá entendendo a importância disso? – e nisso levantou-se da cadeira para que pudesse observar melhor o fato.
-        Disparate, zás! – descruzou as pernas – O não obedecimento das leis da física só pode acarretar em inconveniências de tamanho incalculável. Isso não pode, melhor, isso não deve permanecer em tal estado!
-        Mas... você... que pensa, pelo amor de deus! Como cê pode não se interessar por isso aqui na nossa frente! É um mistério sem igual! É chance de descobrir que tudo que a gente aprendeu tá errado. É a novidade, a gente pode descobrir leis novas, descobrir que nada nunca foi o que era pra ser!
-        Não, nunca! – e levantou em salto da poltrona, já com o indicador direito levantado – As leis já escritas possuem uma coerência irrefutável. A matemática jamais mentirá! Todos os seus pormenores descritos encaixam-se com a mais admirável precisão.
-        Me dá uma equação pra essa porra aí, sabichão!
-        Pois mais do que claramente percebemos que isso não se trata, nada mais nada menos, do que uma mera ilusão. Isso é um perfeito espécimen dos truques que nosso cérebro é capaz de nos conceder, perceba. Quando observamos a incidência dos raios luminosos advindos da lua ao coincidirem com os do abajour...
-        Tá flutuando, não é ilusão, é real, caralho! É a nossa chance de explorar uma coisa nova, descobrir o que há por detrás... Por que é que ela tá parada, hein? Isso não é ilusão, – passou o pé por debaixo da folha, – tá vendo? Tá vendo?
-        Como ousas refutar meu raciocínio?! Se trata de uma mera ilusão. Não há novidade aqui. Todas as leis redigidas já tomei por conhecidas, aprendi tudo o que explica o universo, não se pode simplesmente refutar tal conhecimento. São axiomas!
       E continuaram os dois discutindo sobre o papel, que continuava esperando o seu destino, sua imobilidade já era desconfortável. Porém a discussão começava a tomar fervor, de tal forma que os dois encontraram-se totalmente envolvidos, tão envolvidos que se esqueceram da folha.
         Nesse meio tempo, o cão, que até então estivera quieto perto da parede e não dera sinal de vida, levantou e se aproximou da folha. Cheirou-a, lambeu-a, comeu-a.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Dia de inverno

           O rio em São Paulo nunca é perene. Tá sempre aí, na porta de casa, no meio-fio. Mesmo quando o inverno bate e a respiração fica falha (não sou o único asmático da cidade) a água cai. Mas é claro, depois dela, um dia branco de inverno, quando a temperatura é suportável e o vento nosso amigo. O que sobra é acompanhar a caixa de big-mac na enxurrada.
          São nesses dias que a cidade se transforma. Tudo ganha uma equivalência. A calçada destroçada pelas raízes das árvores não planejadas e brilho impecável dos arranha-céus mais ajeitados, é branco. A velha gritando com o dono da padoca pelo aumento do preço do pão e a outra pagando promessa de joelhos pelo nascimento do tão esperado neto, é branco. A madame cheia de fru-fru que carinhosamente traz os filhos pra natação e o mendigo que é carinhosamente enxotado pelo guarda-costas dela, é branco. O trabalho por um amor impossível na encruzilhada e o cachorro impossível mijando em cima, é branco. E meus tênis sujos, também é branco.
          Eu não devia usar essa cor, ela tá suja de significado.
          Mas um dia assim não é só vento e brancura, é claro que tem garoa. Isso me obriga a entrar no boteco mais próximo e tomar o quinto café do dia, enquanto ouço uma conversa alheia pelos dois minutos que me leva pra terminar um expresso sem açúcar. Depois olhar pra ver se deu em chuva. Que é da caixa de big-mac, já nem sei mais, não ligo. O que me chama atenção agora são as runas indecifráveis do muro à frente. Quando digo runas, não quero colocar a ideia de algo primitivo. É uma nostalgia minha por tempos mais simples, não vividos. Uma possível falta de preocupação em descobrir se o celular é a prova d'água ou não. Nunca saberei, é um devaneio. Mas por outro lado, essas runas nos levam ao que há de mais humano, a necessidade se firmar, e existir, independente se há compreensão ou não, a simples necessidade de ser um marco na história, de ser visto, observado, a sede por atenção, nossa condição humana, nossa fragilidade de animal acuado, nossa incapacidade de ficar só, nossa incapacidade de ficar junto, nossas divergências, nossos problemas, nossas vidas, nossas mortes, nós...  nós!  Nós!! Ambiguamente nós!!
            Eu sou Ateu, mas haja pecado pra uma cidade só, lá vem chuva de novo...

Prelúdio

Esse poema deve ser lido ouvindo essa musica:

Co
            me
                       ça...
Co
            me
                      ça...

É, é o novo prazer
de um novo ciclo.
Não sei mais o que é
                                   do ontem...
Pois, foi-se embora a vez
que eu resoluto
esqueço o singelo eu
                                   do ontem...

Não, não se vá
                         Não, não se vá
Traz-me o prelúdio
Eu quero ver
                         Eu quero ver
Recomeço
Deixe-me ver
                       Não dá
Há um porquê?
                       Não há!
Sobre a vida...

É, esse grande saber
desaparecido
Vai fugir para sempre
                                    o ontem...
Ah, se eu soubesse com que
que eu me perturbo
Não tentaria esquecer
o passado e o futuro

Não há porquê,
                         só viver
Não ficar,
                         não fugir
Só presente,
                        sem passado
Não há na...
É o prelúdio do viver só... só... só...
                                                           só...
                                                                    só....

Goldblood


            “It's with great pleasure that I welcome you to my humble abode!” said he, whose hands shall not be described for matters of hygiene, drawing a timid smile already rotten by smoke.
           “Humble indeed...”  mumbled Gentleman Goldblood, as he picked up one of the little dolls from the table and gazed at it with disgust, then at the man who stood beside him, with the same expression.
           “Would you care for some tea or perhaps a small liqueur?” asked the man, holding his hands together and rubbing them in an awkward manner.
            “No, thank you! You see, my thirst has already been quenched on my way here...” Goldblood replied abruptly. “I visit you on a matter of business only, as you might have guessed...  You see, I have been searching for a man...”
             The man gently raised his eyes and glanced at Goldblood's face, whilst straightened up his body.
          “I wonder if you would be kind enough to provide me with any information that could prove to be useful on how to get ahold of this man, for whom I have been searching...”
          “Most certainly, Sire! Just tell me about this man and you shall have your information!” cheerfully answered the man, almost in a jump.
            “You see, it has been almost five days since I started this ever-so-tiresome pursuit, so far I have not reached any success...  Quite an ordeal, I would say!  I have wandered through every corner of this god forsaken town, only to find myself once more empty-handed!  It is truly disappointing to face such failure. Disappointing indeed...  Well, you see, this man I have been searching...”
            “Tell me more about him!”
            “I have visited every establishment and tavern in town; one can only imagine all the filth I have passed through.  Such filth, I tell you, disgusting!  No living soul should have to endure living in such a place as this town. Everywhere I visit is the same; they are all filled with this foul stench! Every single place has been branded with it.  Disgusting!  But let us not stray from the matter at hand, this man for whom I have been searching...”
            “Yes?..”
        “How can he be put into words? This is a delicate affair, you see, it is most certainly difficult to describe...  But still, one cannot discard the relevancy it bears to me... I wonder if it is possible for you to achieve a full perception of this fact... You see, this man I have been searching...”
            “Please, go on.”
           “Perhaps I should tell you of the reasons I seek this already not-so-known individual...  No, it is not safe.  The reasons shall remain unrevealed to you.  It is not safe, you see.  I have been told that you are the best one to help in my pursuit.  'Look for the man who lives in the small house beyond the river, he might be able to help,' they told me.  So I did.  Such filth, this river...  Disgusting, utterly disgusting!  Never have I seen such filth!  All for this man, this man for whom I have been searching...”
            “Just a moment, Sire, let me light a smoke,” and he picked a long pipe that lay on the window lattice, along with ashes of tobacco.
            As the man took his time looking for a match, Goldblood started to roam around the room and stroke his goatee uneasily.  “How is it possible that this peasant dared to interrupt me, Goldblood?!” he thought.  “Look at this place!  Such filth, such filth!  I hope this vile stench does not defile me.”
            “You see, my pursuit is of extreme importance, I have not a minute to waste...  Not only is it relevant to me, but even, perhaps, to you and everyone in town.  Such importance it bears, that it would not be advisable to stray from such quest.  Let us not divert our attention...  It is most important!  For the sake of all of us!  Do you understand its relevance?  Most probably not...  It is something a lesser mind like yours is not likely to understand.  Only I am able to hold such a profound understanding of this complex matter.  You see, this man I have been searching...”
            “Just get to the point, already!”
            “What?!  How...  how...  How dare you?!  Do you know who I am?  I do not have to withstand such insolence! And from a filthy peasant like you!  To hell with you and all this filth! Scum!”
            Goldblood stomped his way through the door and as he drifted away his voice could still be heard from the inside: “Such filth, such filth!” 
Ó vento,
Leva-me para outro lugar,
Ou não leve, melhor assim
Só não me dê ganas de Pasárdaga.
Quero o mundo, como ele é.
Se quisesse algo mais, busca-lo-ia
Aqui não ficaria a escrever.

O que é, como é,
complexo é.
Retorcido, retorquido,
Remete-me ao retrato que desconheço.
Relembro memórias que não tive
Nostalgia do não vivido

Esqueci!!

Tradução do russo de um conto de A. P. Tchêkhov:


            Certa vez o esperto tenente, dançarino e molengão, senhorio falido já duas vezes por paralizações, agora gordinho e baixinho, Ivan Prokhoritch Hauptvakhtov, fatigado e torturado por compras femininas, entrou numa grande loja de música para comprar partituras.
-        Olá!.. – disse ele, ao entrar na loja. – Com licença...
         Um pequenino alemão, de pé atrás do balcão, inclinou seu pescoço a seu encontro e desenhou no rosto um sorridente ponto de interrogação.
-        O que deseja?
-        Com licença... Que calor!Com esse clima nada ajuda! Com licença... Hmmm... com... licença... Esqueci!!
-        Lembre-se!
            Hauptvakhtov colocou o lábio superior no inferior, enrugou sua pequena testa em três linhas, levantou os olhos e perdeu-se em pensamento.
-        Esqueci!! Mas que raios, Deus me perdoe, de memória dos infernos! Ah, sim... sim... Por favor... Hm... Esqueci!!
-        Lembre-se...
-        Eu a disse: anote! Mas não... Por que ela não anotou? Não posso me lembrar de tudo... Talvez o senhor mesmo a conheça? É uma peça estrangeira, é tocada tão forte... Não?
-        Nós temos tantas, entenda, que...
-        Ah sim... Entendo! Hm... Hm... Me deixe lembrar... Mas como pode ser? Não posso ir sem a peça; minha filha, a Nadia, cairá em prantos; tocá-la sem partitura, entenda, não é inteligente... não funciona! Ela tinha a partitura, mas, admito, sem querer derrubei querosene nela e, para que não houvesse choro, eu a escondi na cômoda... Não suporto choro de menina! Ela me mandou comprar... Tudo bem... pfff... Que gato pomposo! – E Hauptvakhtov acariciou o grande gato cinza rolando no balcão... O gato ronronou e se espreguiçou tentadoramente.
-        Bonitinho... Sabe, pestinha siberiano!.. De raça, patife... É gato ou gata?
-        Gato.
-        Ei, no que você esta mexendo? Ei! Bichano imbecil! Pegou um rato? Miau, miau?.. Mas que memória dos infernos!.. Ei, gordo de raça! O seu gatinho não se move por nada?
-        Não... Hm...
-        Eu o levaria... Minha mulher é apaixonada pelos irmãos desse – os gatos!.. O que será agora? Pelo caminho inteiro eu lembrava, e agora esqueci... Perdi a memória, céus! Me tornei um velho, se foi meu tempo... Morreram-se os tempos... É tocada tão potente, com foco, solene... Cantarei, pode ser...
-        Cante... oder[1]... oder... ou assovie!..
-        Assoviar dentro de um lugar fechado é pecado... Foi-se o nosso Sedelnikov, que assoviou, assoviou, e assoviou-se... O senhor é alemão ou francês?
-        Alemão.
-        Eu notei que havia algo em sua aparência... É muito bom que o senhor não é francês... Não gosto de franceses... oinc, oinc, oinc...uns porcos! Nos tempos de guerra comiam ratos... Assoviava em minha loja de manhã até a noite e assoviei todos os meus mantimentos para a fornalha!  Agora estou o tempo inteiro em afazeres... E ainda devo duzentos rublos... Às vezes eu canto para mim mesmo. Hm... Com licença... Eu cantarei... Espere. Agora... Cof... Tosse... A garganta está irritada...
            Hauptvakhtov, estalando três vezes os dedos, fechou os olhos e cantou em falsete:
-        Lala-ri-lalam... Ro-ro-ro... Eu sou tenor... Em casa eu sou o com a maior voz... Com licença... Tri-ra-ra... Cooff... Tem algo preso nos dentes... Eca! Uma semente... O-la-o-o-uu... Cooff.. Peguei um resfriado, deve ser... Bebi uma cerveja gelada na taverna... Tru-ru-ru... E vai tudo para cima... e depois, sabe, para baixo, para baixo. Passa pelos lados, e depois alcança uma nota alta, tão solta... la-la-ri... ruuu... O senhor me entende? Enquanto isso o baixo vai: lu-lu-lu-tutu... Me entende?
-        Não entendo...
            O gato olhou com surpresa para Hauptvakhtov, riu, só pode ser, e preguiçosamente pulou do balcão.
-        O senhor não entende? Pena... Então eu não devo estar cantando certo... Esqueci totalmente, que estorvo!
-        O senhor poderia tocar no piano... o senhor toca?
-        Não, não toco... Uma época eu tocava no violino em uma corda, mas só isso... tolo... Não me ensinaram... Meu irmão Nazar toca. O ensinaram... O Francês Rocat, talvez o senhor conheça, Benedict Frantsytch ensinou... Que francesinho mais engraçado... Nós o chamávamos de Bonaparte. Ele se irritava... “Eu, já disse, não sou Bonaparte... Eu sou a favor da república para França”... Sua erisipela, para falar a verdade, também era republicana... Erisipela quase de cachorro... Os meus queridos pais não me ensinaram nada... O seu tio, diziam, chamava-se Ivan, e você é Ivan, e por isso você deve ser parecido com o seu tio em todos os jeitos: militar, malandro! Foguento! Ternuras, irmão... irmão... Eu, irmão... Eu, irmão, não te permito ternuras! O tio, de algum jeito, se alimentava de carne de cavalo, e você deve comer também por isso!.. Você coloca a sela no lugar de travesseiro!.. Agora me vou para casa! À caminho! Fui ordenado a não chegar em casa sem a partitura... Adeus, nesse caso! Me desculpe o incômodo!.. Quanto está esse piano?
-        Oitocentos rublos!
-        Ro-ro-ro... Deus do céu! Isso se chama: comprar um piano e andar sem calças! Ho-ho-ho! Oitocentos ru... blos!! Meus ouvidos não mentem! Adeus! Chprerrenzi! Guebenzi!..[2] Eu almocei certa vez na casa de um alemão, sabe... Depois do almoço eu pergunto a um senhor, também alemão, como se fala em alemão: “Muitíssimo obrigado pelo pão e pelo sal”? E ele me responde... me responde... Com licença!.. Me responde: “Irr libe dirr fon gantsen guiêrtsen![3] O que isso significa?
-        Eu... eu te amo, – traduziu o alemão, de pé atrás do balcão, – de todo coração!
-        Está aí! Eu me aproximei da filha do anfitrião e quase que instantaneamente falei isso... Ela ficou confusa... Quase que se passa um acontecimento histérico... Uma comissão!.. Adeus! Minha cabeça ruim e minhas pernas me incomodam... Também comigo... Com essa maldita memória só me vem desgraça: umas vinte vezes já! Vá com Deus!
            Hauptvakhtov abriu com cautela a porta, saiu para rua e, depois de cinco passos, colocou o chapéu.
            Ele xingou sua memória e parou pensativo...
            Ficou pensando em como chegaria em casa, como pulariam em seu encontro sua mulher,  sua filha, suas criancinhas... A mulher olharia as compras, o xingaria, o chamaria de algum animal, jumento ou boi... As crianças atacariam as guloseimas e começariam em frenesi a destruir os seus já corroídos estômagos... Viria ao seu encontro Nadia com roupas azuis e um lenço rosa e perguntaria: “Comprou a partitura?” Rindo: “Não”, ela xingaria seu velho pai, se baniria em seu quarto, uivaria e não sairia para o almoço... Depois sairia de seu quarto e, choramingando, morta de tristeza, sentaria ao piano. Tocaria o começo de algo melancólico, cantaria qualquer coisa, engolindo as lágrimas... Ao chegar da noite Nadia ficaria mais alegre, e finalmente, comovidamente e pela última vez respirando profundamente, ela tocaria aquele amado: to-to-ti-to-to...
            Hauptvakhtov franziu sua testa e como um lunático correu direto de volta para loja.
-        To-to-ti-to-to, ogo-go! – cantou ele, correndo para dentro da loja. – Lembrei!! É isso mesmo! To-to-ti-to-to!
-        Ah... Agora sim está claro. Isso é a rapsódia de Liszt, número dois... Hongroise...[4]
-        Sim, sim, sim... Liszt, Liszt! Que Deus me mate, Liszt! Número dois! Sim, sim, sim... Minha querida! É essa mesmo com certeza! A própria!
-        Sim, Liszt é difícil de cantar... Qual o senhor prefere: original[5] ou facilité[6]?
-        Tanto faz! Desde que seja a número dois, Liszt! Ousado esse Liszt! To-to-ti-to... Há há há! Quase não lembrei! Essa mesmo!
            O alemão retirou da prateleira um caderninho, o embrulhou com a nota fiscal e vendeu o pacote a Hauptvakhtov. Hauptvakhtov pagou oitenta e cinco copeques e saiu, assoviando.



[1]    ou  (Alemão).
[2]    Do alemão “Sprechen Sie! Geben Sie!” escrito em cirílico pelo autor.
[3]    Do alemão “Ich liebe dich vom ganzen Herzen”
[4]    Húgara (Francês)
[5]    No original, em francês: original
[6]    Facilitado (Francês)

Elegia ao presente

Cadê o presente, triste, contente?
Foi-se embora, longe, longínquo.
Por dentre os lados do monumento,
Vê-se de fora, o ontem, mentindo.
E alegria do tal do iminente?
Essa já chora, foge, partindo...

Carpe Noctem

                Era uma noite de virtuosística beleza. A leveza com a qual tintilavam plácida e vagamente as luzes dos postes concedia ao céu,  já nublado de poderosas nuvens, um brilho, que somente nessas noites nubladas de São Paulo se percebe. De longe ouvia-se um raro e eventual som de carro. Começara a garoar. As luzes agora escorriam-se em borrões, tudo estava amarelo-aralanjado da mais bela poluição.
            Continuo com meus passos. Uma noite como essa merece ser aproveitada! Ando lentamente, esqueço meu rumo. Tinha eu um rumo? Não. Assim sendo, vou-me para algum boteco. Não, esse tipo de noite é reservada àqueles cuja solidão traz mais do que desespero: inquietude; mais do que desamparo: ironia.
            Como aproveitá-la?
            Posso subir no topo de algum prédio bem alto, para que me aproxime do céu de luz refletida, e o respingo da agora ácida chuva me acaricie sem impedimentos. Posso achar um parque qualquer, onde o gotejo se mistura com o farfalhar das folhas e os mendigos a procura de abrigo. Posso entrar no primeiro ônibus que aparecer, observar como formam-se nas janelas mini cascatas, pelas quais se repara a constante agitação com que se vão paredes, casas, prédios, para depois ser expulso na última parada e estar fadado a andar a esmo até a aurora. Posso ir a alguma ruela escura, inclinar-me a parede e olhar de soslaio a avenida de onde vem algum traço de claridade, e assim notar que estou enclausurado por luz, em cima e aos lados, em meu refúgio sombrio. Posso ainda, quem sabe, simplesmente voltar para casa, ouvir algum compositor impressionista, enquanto, do marasmo ao caos, atravesso si próprio, ao retirar o foco dos olhos e aos poucos adormecer.
            Ah! mas quantas possibilidades! Tantas coisas me vem a mente! Já não faço a menor ideia de como aproveitá-la. Todas me parecem igualmente boas. Oh, como seria bom! Quantas emoções não presenciaria?! Como estou livre para me deixar levar!
            É dia, foi-se a noite.