Reinácio chegou a cidade com os pés esfolados. Tudo o que ele possuía era uma mochila, nela: um cobertor, uma garrafa e um pão duro e amassado. O resto se precisasse conseguia por caridade. Havia muito tempo que Reinácio embarcara nessa peregrinação, de vila em vila, cidade em cidade, sempre andando, sempre andando. Em certo ponto da sua vida encasquetou-se em fazer da Terra o purgatório, expirar os pecados, para assim chegar ao céu mais rápido; desde então calou-se e pôs-se em movimento. Mas a marca desse vida martiriosa era óbvia e qualquer um que o olhasse perceberia: as mãos frias e calejadas, os pés ensanguentados, o cabelo seco e gasto, a barba longa e mal cuidada, a pele suja e abatida, mas principalmente a magreza de quem abdicou os prazeres de Dionísio. E seu aspecto, nesse instante sob o luar, fantasmagórico por si só, tornava sua existência quase nula, um ectoplasma, quase.
Andava simplesmente, nada não queria, só um telhado, só um misero abrigo que o protegesse do sereno; dormir para retomar sua caminhada em busca de redenção.
Chegou a cidade e procurou o centro, pois em todo centro há uma igreja, e em toda igreja bondade, acreditava. Seguiu sua lenta marcha silenciosa pelas estreitas ruas ainda de paralelepípedos, escolhendo por instinto em qual virar, atravessando o silêncio ainda maior do que o de seus passos. Seguia com seu cambalear de viajante exaurido, extremamente melancólico, o que só se reforçava pela desertidão da cidade, o sono profundo de todos os habitantes, e, quem sabe, pela escassa luz do único lampião.
Enfim achou a igreja. Tirou seu cobertor sujo da mochila, deitou-se a porta, cobriu-se e cerrou os olhos, como alguém que finalmente encontra a mente limpa.
“Você não pode dormir aqui.” disse o padre, abrindo a porta.
Reinácio levantou, abriu a mochila e tirou o pão. Ofereceu-o ao padre.
“Não quero propina, sai daqui, vagabundo!”
Reinácio manteve-se parado, simplesmente olhou para o padre, sem demonstrar nenhuma emoção, partiu um pedaço do pão e de novo ofereceu ao padre.
“Aqui é casa do Nosso Senhor, não abrigo de mendigo, vai embora, vagabundo!”
Continuou na mesma posição, com o olhar fixo, piscou e ofereceu o pão. O padre entrou na igreja e voltou com um cabo de vassoura.
“Não vai dormir em outro lugar? Vou te ensinar a respeitar Aquele que nos criou!” e fez gesto de que ia bater com o cabo de vassoura. Reinácio por não reagir a ameça, começou deveras a ser espancado.
“Você gosta disso? Vai aprender a respeitar o Nosso Pai, vagabundo!”
Nenhuma única menção de movimento ou dor vinha de Reinácio, ele levava cada paulada como se fosse um saco de areia. Isso causou uma raiva incontrolável no padre, que agora batia mais forte e mais forte. Eram movimentos cadenciados, precisão rítmica perfeita, o bater e o bater continuavam. Nessa o sol começou a mostrar as caras, e com a chegada da aurora, o viajante era agora quase uma massa de ossos, sangue e hematomas. O padre, pressentido que o outro logo morreria, perguntou:
“Alguma última palavra antes de ir pro inferno, vagabundo?”
“Eu te perdoo.”
Грустно...Но я очень любил этот текст!
ResponderExcluirТо есть...ЛюбилА Rsrsrsrsrs...
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