Era uma noite de virtuosística beleza. A leveza com a qual tintilavam plácida e vagamente as luzes dos postes concedia ao céu, já nublado de poderosas nuvens, um brilho, que somente nessas noites nubladas de São Paulo se percebe. De longe ouvia-se um raro e eventual som de carro. Começara a garoar. As luzes agora escorriam-se em borrões, tudo estava amarelo-aralanjado da mais bela poluição.
Continuo com meus passos. Uma noite como essa merece ser aproveitada! Ando lentamente, esqueço meu rumo. Tinha eu um rumo? Não. Assim sendo, vou-me para algum boteco. Não, esse tipo de noite é reservada àqueles cuja solidão traz mais do que desespero: inquietude; mais do que desamparo: ironia.
Como aproveitá-la?
Posso subir no topo de algum prédio bem alto, para que me aproxime do céu de luz refletida, e o respingo da agora ácida chuva me acaricie sem impedimentos. Posso achar um parque qualquer, onde o gotejo se mistura com o farfalhar das folhas e os mendigos a procura de abrigo. Posso entrar no primeiro ônibus que aparecer, observar como formam-se nas janelas mini cascatas, pelas quais se repara a constante agitação com que se vão paredes, casas, prédios, para depois ser expulso na última parada e estar fadado a andar a esmo até a aurora. Posso ir a alguma ruela escura, inclinar-me a parede e olhar de soslaio a avenida de onde vem algum traço de claridade, e assim notar que estou enclausurado por luz, em cima e aos lados, em meu refúgio sombrio. Posso ainda, quem sabe, simplesmente voltar para casa, ouvir algum compositor impressionista, enquanto, do marasmo ao caos, atravesso si próprio, ao retirar o foco dos olhos e aos poucos adormecer.
Ah! mas quantas possibilidades! Tantas coisas me vem a mente! Já não faço a menor ideia de como aproveitá-la. Todas me parecem igualmente boas. Oh, como seria bom! Quantas emoções não presenciaria?! Como estou livre para me deixar levar!
É dia, foi-se a noite.
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