O rio em São Paulo nunca é perene. Tá sempre aí, na porta de casa, no meio-fio. Mesmo quando o inverno bate e a respiração fica falha (não sou o único asmático da cidade) a água cai. Mas é claro, depois dela, um dia branco de inverno, quando a temperatura é suportável e o vento nosso amigo. O que sobra é acompanhar a caixa de big-mac na enxurrada.
São nesses dias que a cidade se transforma. Tudo ganha uma equivalência. A calçada destroçada pelas raízes das árvores não planejadas e brilho impecável dos arranha-céus mais ajeitados, é branco. A velha gritando com o dono da padoca pelo aumento do preço do pão e a outra pagando promessa de joelhos pelo nascimento do tão esperado neto, é branco. A madame cheia de fru-fru que carinhosamente traz os filhos pra natação e o mendigo que é carinhosamente enxotado pelo guarda-costas dela, é branco. O trabalho por um amor impossível na encruzilhada e o cachorro impossível mijando em cima, é branco. E meus tênis sujos, também é branco.
Eu não devia usar essa cor, ela tá suja de significado.
Mas um dia assim não é só vento e brancura, é claro que tem garoa. Isso me obriga a entrar no boteco mais próximo e tomar o quinto café do dia, enquanto ouço uma conversa alheia pelos dois minutos que me leva pra terminar um expresso sem açúcar. Depois olhar pra ver se deu em chuva. Que é da caixa de big-mac, já nem sei mais, não ligo. O que me chama atenção agora são as runas indecifráveis do muro à frente. Quando digo runas, não quero colocar a ideia de algo primitivo. É uma nostalgia minha por tempos mais simples, não vividos. Uma possível falta de preocupação em descobrir se o celular é a prova d'água ou não. Nunca saberei, é um devaneio. Mas por outro lado, essas runas nos levam ao que há de mais humano, a necessidade se firmar, e existir, independente se há compreensão ou não, a simples necessidade de ser um marco na história, de ser visto, observado, a sede por atenção, nossa condição humana, nossa fragilidade de animal acuado, nossa incapacidade de ficar só, nossa incapacidade de ficar junto, nossas divergências, nossos problemas, nossas vidas, nossas mortes, nós... nós! Nós!! Ambiguamente nós!!
Eu sou Ateu, mas haja pecado pra uma cidade só, lá vem chuva de novo...
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