sábado, 23 de julho de 2011

O escritor e o intelectual

            Escrevia ele na máquina tão rápida e violentamente que, é claro, estava fadado a errar. Pois foi o que se sucedeu. Perdera a folha, erro irreparável. Enfezou-se e a arrancou da máquina com uma brutalidade já esperada e jogou-a para trás.
           A folha ao gentilmente rodopiar no ar, exibia sua brancura corroída por uma estória inacabada, por um erro. Se deparava com a fatalidade de já não pertencer mais a uma função. Era história agora, passado. Seu único consolo seria a boa vontade do dono de a jogar no lixo e acabar de vez com seu papel no mundo. Mas planava com delicadeza... Continuava com seu lento percurso de encontro ao chão e... parou! Simplesmente estava lá, imóvel, estática, sem nada que a apoiasse, entre o chão gélido e o teto distante: parada!
-        Que fato incomum – começou o outro sentado na poltrona atrás dele, pousando o livro,– isso diverge de qualquer lei já redigida. Quanta soberba em relação à minha adorada física! Obviamente que a certa reação é forçá-la a retornar a seu movimento inicial, para que assim chegue ao chão e não ofenda a querida entropia.
-        Mas que absurdo! Ela não é mais uma folha comum, agora ela é especial, entende. Ela já tinha ficado inútil, mas ela é mais forte, ela não desiste! Ela tem que ser estudada, entender pra que é que ela tá aí parada, que maldita força de vontade que ela arranjou pra poder parar. Isso é completamente novo, nunca antes visto! Você tá entendendo a importância disso? – e nisso levantou-se da cadeira para que pudesse observar melhor o fato.
-        Disparate, zás! – descruzou as pernas – O não obedecimento das leis da física só pode acarretar em inconveniências de tamanho incalculável. Isso não pode, melhor, isso não deve permanecer em tal estado!
-        Mas... você... que pensa, pelo amor de deus! Como cê pode não se interessar por isso aqui na nossa frente! É um mistério sem igual! É chance de descobrir que tudo que a gente aprendeu tá errado. É a novidade, a gente pode descobrir leis novas, descobrir que nada nunca foi o que era pra ser!
-        Não, nunca! – e levantou em salto da poltrona, já com o indicador direito levantado – As leis já escritas possuem uma coerência irrefutável. A matemática jamais mentirá! Todos os seus pormenores descritos encaixam-se com a mais admirável precisão.
-        Me dá uma equação pra essa porra aí, sabichão!
-        Pois mais do que claramente percebemos que isso não se trata, nada mais nada menos, do que uma mera ilusão. Isso é um perfeito espécimen dos truques que nosso cérebro é capaz de nos conceder, perceba. Quando observamos a incidência dos raios luminosos advindos da lua ao coincidirem com os do abajour...
-        Tá flutuando, não é ilusão, é real, caralho! É a nossa chance de explorar uma coisa nova, descobrir o que há por detrás... Por que é que ela tá parada, hein? Isso não é ilusão, – passou o pé por debaixo da folha, – tá vendo? Tá vendo?
-        Como ousas refutar meu raciocínio?! Se trata de uma mera ilusão. Não há novidade aqui. Todas as leis redigidas já tomei por conhecidas, aprendi tudo o que explica o universo, não se pode simplesmente refutar tal conhecimento. São axiomas!
       E continuaram os dois discutindo sobre o papel, que continuava esperando o seu destino, sua imobilidade já era desconfortável. Porém a discussão começava a tomar fervor, de tal forma que os dois encontraram-se totalmente envolvidos, tão envolvidos que se esqueceram da folha.
         Nesse meio tempo, o cão, que até então estivera quieto perto da parede e não dera sinal de vida, levantou e se aproximou da folha. Cheirou-a, lambeu-a, comeu-a.

Um comentário:

  1. Gostei muito!!! Me fez pensar e ler de novo, achei fantástico isso!!! E gosto muito do sua inclusão de recursos poéticos na sua obra!!!

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